quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Olimpíadas???

Cá estou outra vez como advogada do diabo ou como mera porta-voz de minha solitária indignação ... acho que este é o termo mais adequado ao meu estado de espírito: indignação. Não vou descambar aqui por um discurso técnico ou econômico, meu objetivo não é me ater a cifras ou estatísticas - não por falta de argumentos ou dados, mas simplesmente por considerar que o "superficial" da questão já é o bastante para justificar meu sentimento. Como de costume já me desculpo aos entusiastas de plantão, mas não pertenço a esta tribo e acredito que execesso de animação prejudica os julgamentos.

Deixando a enrolação de lado, o que vem me atormentando é este apoio frenético (quase esquizofrênico) a campanha do "Rio 2016". A mídia, mais uma vez, está em festa ... depois da morte do astro pop Michael Jackson (cá entre nós, há muito esquecido e citado apenas por bizarrices esporádicas), nada como uma Copa do Mundo e uma Olimpíada para alimentar as grades de programação!!!

Olimpíada verde-amarela, carnaval fora de época, que prato cheio! a política do pão e circo continua vigorando com sucesso nesses mares do sul. Sou apaixonada pelo meu país (uma relação masoquista, mas sincera) e é exatamente em função do meu amor que não compactuo com esta "palhaçada" pra gringo ver! Afinal, a conta vai chegar no meu quintal e não no deles ...
No dia da divulgação da "grande campeã" o Rio de Janeiro estava em festa, o prefeito decretou feriado facultativo à população, lá estava a areia lotada de gente vestindo as cores do país e cantando com o Lulu Santos ... quando se anunciou, com sotaque "gringolês", o nome do Rio de Janeiro, o Brasil inteiro vestiu a camiseta da seleção e se deixou contagiar pela exaltação carioca que pulsava em todas as emissoras de tevê.

Não acreditei ... ainda não acredito ... que a cidade é linda eu já sei, que somos capazes de organizar uma festa inesquecível não tenho dúvida, que o povo é maravilhoso eu também concordo, MAS este mesmo povo tem necessidades mais urgentes ... ou melhor, tem necessidades e, infelizmente, creio que sediar as olimpíadas não ajudará em nada.

Tem gente que ainda não tem água em casa, não existe saneamento, uma chuva e o país pára ou "apaga", não transporte adequado nem nas grandes nem nas pequenas cidades, não há emprego, não há educação e, segundo dizem, não há nada disso porque não há dinheiro!!! Então como realizar uma Olimpíada?!?!?! Sei que vai ter alguém para me considerar simplista, mas nesse caso específico a questão é simples assim ... não há nem motivos para apelar e falar da violência, o discurso político já dá conta do absurdo que estão nos fazendo festejar.

Embora eu já tenha falado muito sobre isso, acho que é importante ressaltar mais uma vez que nosso povo precisa aprender a refletir mais e assumir mais responsabilidades sobre os rumos do do país. Enquato celebramos uma candidatura para sediar as Olimpíadas sem realizar qualquer questionamento, os cidadãos dos concorrentes demonstraram enorme reprovação à candidatura das suas cidades e países ... Por que será que somos os únicos confetes da festa? será que só nós percebemos a importância do evento? ou quem sabe estamos preocupados demais em encher o salão e esquecemos de pensar quem vai pagar pela festa?

sábado, 26 de setembro de 2009

24

Vinte e quatro. 24 anos. Deveria ser, mas não é ... estou sentada com vestido e laço, estou calada vendo os adultos discursarem, estou em silêncio, morando no imaginário, do outro lado da calçada, descalça, com as mãos agarradas no meio fio ... não quero atravessar sozinha, todos já se foram e aprendi a esperar uma mão estendida ... ela não aparece, ela ainda não apareceu.


segunda-feira, 13 de julho de 2009

História para os netos 1

Quando éramos criança os pais do nosso vizinho, o Mané Letrinha, diziam:

- Garoto! larga já essa bola e vai estudar. Você não é filho de pai rico não, caso não meta a cara nos livros vai acabar morrendo de fome!!!

E lá ia o garoto se encerrar no quarto e fazer a lição de casa.

Nessa época, passar horas na frente de um computador era visto como desperdício pelos pais e o Mané já estava acostumado com os sermões:

- Te dou um minuto para desligar essa porcaria e ir pra cama, vá ler um livro ou fazer alguma coisa de útil pelo seu futuro!

E sabe meuneto, naquele tempo muitas crianças acreditaram que era melhor mesmo encarar os livros e solidificar seus conhecimentos buscando uma formação, alguns chegavam a ficar anos tentando entrar em universidades, você acredita? ... pois é, com o Mané foi assim. Ele tentou relutar um pouco, queria fazer teatro, mas os pais não aprovavam isso também:

- Artista? dinheiro não cai do céu meu filho. Você tem que estudar para ter alguma chance de ser bem sucedido na vida. Acredite Manezinho, o mundo lá fora é cruel com quem não tem um diploma.

Os anos foram se passando e o Mané Letrinha foi se tornando um devorador de livros, sabia de tudo um pouco. Quando terminou a escola decidiu fazer jornalismo para contar às pessoas todas as coisas importantes que tinha aprendido e as diversas histórias que existem por aí. Jornalismo??? ahhhhhhh, desculpe pela falha, jornalismo era uma profissão que existia no tempo do Mané e do vovô, mas isso é passado meu querido.

Se nosso vizinho ainda é jornalista? não meu neto, é não. O coitado foi substituído por um ator que passou a apresentar o jornal, sabe? aquele bonitão que faz sua vó suspirar ... o Mané Letrinha não fazia tanto sucesso , acho que ele falava demais e sorria de menos ... queria contar muitas coisas que ninguém mais tinha tempo pra ouvir.

Mas hoje ele está bem, seguiu os conselhos de um velho "coronel" que batia um martelo: vendeu seus livros para um sebo e conseguiu um emprego de cozinheiro no refeitório do "muita grana para jogar aqui futebol clube", ele tá conseguindo sobreviver dignamente eu acho, mas não tenho muitas notícias dele ... não tenho mais notícias sobre muitas coisas na verdade.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Despedida

Naquela tarde a menina reapareceu e irrompeu pelos longos corredores com o ímpeto reservado apenas às almas ingênuas. Suas pequenas pernas eram tão ágeis quanto imperceptíveis, suas traças eram de um castanho vivo e seus lábios sorriam suavemente enquanto aguardava o momento exato.

Consigo a pequena trazia apenas um vestido, uma peça de tecido simples que outrora usara, mas que, naquele momento, precisava entregar a alguém.

Assim que o fez ela se foi, seus olhos luminosos deixaram para trás somente o silêncio e um aparente vazio. Atrás dela alguns rostos familiares sentiam a dor furiosa da impotência humana perante a suavidade e leveza do eterno adeus.

Às 16:15 daquela tarde ensolarada duas meninas partiram rumo ao invisível usando seus velhos vestidos, suas mãos estavam dadas e seus rostos transpareciam uma felicidade típica dos reencontros.
Na tarde seguinte começou a chover ... na casa de minha avó tudo que encontrei foi ausência e uma fotografia de uma menina com um vestido ...

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Janela


Minha janela enquadra a paisagem móvel do dia-a-dia. Os carros passam sem rastros nem histórias, participam de um momento único, tornam-se pinceladas em uma tela mutante, o retrato efêmero do movimento incessante que orienta a vida que se passa lá fora.

Aqui dentro, tudo que vejo são estantes entulhadas de tudo aquilo que não sei, o relógio na parede marca o tempo já não tenho e as caixas guardam restos de sonhos adiados, de tempos de um passado tão distante que já não pertencem mais a mim. Permaneço assim, imóvel, observando através da transparência, buscando proteção nos milímetros que me separam da fugacidade do que está além.

A travessia entre o cá e o lá pode ser mínima, mas a dor do ato é imensa. É preciso coragem para assumir a própria transitoriedade, a sua pequenez diante da aquarela que te prende e te apaga, do seu tudo que lá não é nada. O que persiste é apenas o movimento que te leva e descolore ... a janela distante se fecha e quando volta a abrir revela uma nova paisagem da qual já não faço mais parte.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

É Proibido Fumar!

É proibido fumar. Em todo e qualquer lugar é a mesma história. Concordo, mas em termos. Fumar em ambiente fechado é mesmo o fim, não há discussão sobre isso, já se tornou consenso até mesmo entre os fumantes. Agora, falar em chamar a polícia quando alguém estiver fumando, mesmo em ambientes abertos dentro de algum estabelecimento, é um ABSURDO. Escutei isso em algum telejornal e fiquei boquiaberta, pasma mesmo.

Na verdade, a abordagem dada e o discurso dirigido aos fumantes é inadmissível, chocante e por vezes, como toda incoerência, hilariante. O que mais me diverte é a mídia, por anos o cigarro foi enaltecido por ela, criou-se toda uma mítica sedutora em torno do ato de fumar. Lá estavam os galãs com seus cigarros no canto da boca, com olhos semi-fechados e fazendo cara de garanhão. Hoje, o cigarro passou às mãos dos “homens maus”, os vilões, moradores do submundo que aparecem envoltos em fumaça, quase um ícone de sua malignidade e posição periférica. Agora, os bons não fumam, os maus sim!

Tudo bem, dá para entender a postura adotada em função das inúmeras descobertas sobre os malefícios do cigarro, não cabe a um formador de opinião incentivar um vício tão prejudicial à saúde, ok concordamos! Entretanto é preciso que haja um equilíbrio entre a imagem de “galã” e de um “vilão”.

A meu ver o que acontece é que a mensagem de “Fumar causa câncer” foi apreendida socialmente como “Fumantes causam câncer, cuidado com eles!”. Os fumantes passaram a ser vistos como um mal social, como suicidas em potencial, pessoas que não se preocupam nem consigo nem com os outros. Poluidores de pulmões!!! Maus ... uma visão, no mínimo sombria e preconceituosa.

O que me impressiona logo de cara é, que até onde sei, o cigarro é sim uma droga, mas uma droga legalizada que gera um lucro imenso ao Estado. Ao passo que outras drogas como a maconha, por exemplo, são consideradas ilegais e, teoricamente, não reverte em qualquer benefício financeiro, pelo contrário, alimentam o tráfico de armas, as facções criminosas e são responsáveis por um custo gigantesco em programas de recuperação e segurança pública.

Apesar disso, a imagem que se vem introjetando na sociedade é de que o usuário de drogas ilícitas é uma vitima do vicio, um pobre coitado que foi aliciado para o mal, mas que deve ser respeitado, tratado e auxiliado pelo social. Fumar maconha não é caso de policia, é caso médico ... pobrezinhos, eles são reféns do sistema, do vício, dos traficantes malvados. Já os fumantes, estes não! Estes são pessoas conscientes que escolheram fazer mal a sua própria saúde e a alheia, precisam ser excluídos, colocados em fumódromos (que mais parecem jaulas), deixados do lado de fora e, mesmo assim, não em qualquer “fora” porque agora pode ser caso de polícia fumar no pátio de um restaurante, por exemplo. Isso não parece incoerente? Ou estou sendo parcial?

Sinceramente não sei a resposta, mas tenho uma sugestão: proíbam logo o cigarro, tornem o fumo uma droga ilícita. Assim o Estado estará provendo os fumantes de criminosos, suicidas e malfeitores à vítimas inocentes do sistema, do vício, dos traficantes, etc.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Meu tempo nada

Preciso confessar que algumas vezes fecho as cortinas e prefiro não estar, prefiro não ser nem parecer. Admito que em alguns dias a liberdade do nada é tudo que me atrai, que me motiva ... não é preguiça ou cansaço, é vontade pura de nada.

Existir como nada é libertador! a insignificância dá espaço à alma que se espreguiça para fora da aparência do ser. Gosto de amanhecer assim, como vácuo em mim, como espaço preenchido por vida ... simples.

Nem sempre consigo atender a essa exigência primitiva que guardo nas estranhas, é difícil ser vazio, é complicado se deixar murchar ... Somos condicionados a inflar, a crescer, a ganhar dimensão para ser visto. Mas afinal o que há para ser visto?

É somente no meu momento vazio, desnudo, quando me torno apenas respiração, que descubro a verdadeira resposta.