Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Despedida

Naquela tarde a menina reapareceu e irrompeu pelos longos corredores com o ímpeto reservado apenas às almas ingênuas. Suas pequenas pernas eram tão ágeis quanto imperceptíveis, suas traças eram de um castanho vivo e seus lábios sorriam suavemente enquanto aguardava o momento exato.

Consigo a pequena trazia apenas um vestido, uma peça de tecido simples que outrora usara, mas que, naquele momento, precisava entregar a alguém.

Assim que o fez ela se foi, seus olhos luminosos deixaram para trás somente o silêncio e um aparente vazio. Atrás dela alguns rostos familiares sentiam a dor furiosa da impotência humana perante a suavidade e leveza do eterno adeus.

Às 16:15 daquela tarde ensolarada duas meninas partiram rumo ao invisível usando seus velhos vestidos, suas mãos estavam dadas e seus rostos transpareciam uma felicidade típica dos reencontros.
Na tarde seguinte começou a chover ... na casa de minha avó tudo que encontrei foi ausência e uma fotografia de uma menina com um vestido ...

Quarta-feira, 15 de Abril de 2009

Janela


Minha janela enquadra a paisagem móvel do dia-a-dia. Os carros passam sem rastros nem histórias, participam de um momento único, tornam-se pinceladas em uma tela mutante, o retrato efêmero do movimento incessante que orienta a vida que se passa lá fora.

Aqui dentro, tudo que vejo são estantes entulhadas de tudo aquilo que não sei, o relógio na parede marca o tempo já não tenho e as caixas guardam restos de sonhos adiados, de tempos de um passado tão distante que já não pertencem mais a mim. Permaneço assim, imóvel, observando através da transparência, buscando proteção nos milímetros que me separam da fugacidade do que está além.

A travessia entre o cá e o lá pode ser mínima, mas a dor do ato é imensa. É preciso coragem para assumir a própria transitoriedade, a sua pequenez diante da aquarela que te prende e te apaga, do seu tudo que lá não é nada. O que persiste é apenas o movimento que te leva e descolore ... a janela distante se fecha e quando volta a abrir revela uma nova paisagem da qual já não faço mais parte.

Sexta-feira, 3 de Abril de 2009

É Proibido Fumar!

É proibido fumar. Em todo e qualquer lugar é a mesma história. Concordo, mas em termos. Fumar em ambiente fechado é mesmo o fim, não há discussão sobre isso, já se tornou consenso até mesmo entre os fumantes. Agora, falar em chamar a polícia quando alguém estiver fumando, mesmo em ambientes abertos dentro de algum estabelecimento, é um ABSURDO. Escutei isso em algum telejornal e fiquei boquiaberta, pasma mesmo.

Na verdade, a abordagem dada e o discurso dirigido aos fumantes é inadmissível, chocante e por vezes, como toda incoerência, hilariante. O que mais me diverte é a mídia, por anos o cigarro foi enaltecido por ela, criou-se toda uma mítica sedutora em torno do ato de fumar. Lá estavam os galãs com seus cigarros no canto da boca, com olhos semi-fechados e fazendo cara de garanhão. Hoje, o cigarro passou às mãos dos “homens maus”, os vilões, moradores do submundo que aparecem envoltos em fumaça, quase um ícone de sua malignidade e posição periférica. Agora, os bons não fumam, os maus sim!

Tudo bem, dá para entender a postura adotada em função das inúmeras descobertas sobre os malefícios do cigarro, não cabe a um formador de opinião incentivar um vício tão prejudicial à saúde, ok concordamos! Entretanto é preciso que haja um equilíbrio entre a imagem de “galã” e de um “vilão”.

A meu ver o que acontece é que a mensagem de “Fumar causa câncer” foi apreendida socialmente como “Fumantes causam câncer, cuidado com eles!”. Os fumantes passaram a ser vistos como um mal social, como suicidas em potencial, pessoas que não se preocupam nem consigo nem com os outros. Poluidores de pulmões!!! Maus ... uma visão, no mínimo sombria e preconceituosa.

O que me impressiona logo de cara é, que até onde sei, o cigarro é sim uma droga, mas uma droga legalizada que gera um lucro imenso ao Estado. Ao passo que outras drogas como a maconha, por exemplo, são consideradas ilegais e, teoricamente, não reverte em qualquer benefício financeiro, pelo contrário, alimentam o tráfico de armas, as facções criminosas e são responsáveis por um custo gigantesco em programas de recuperação e segurança pública.

Apesar disso, a imagem que se vem introjetando na sociedade é de que o usuário de drogas ilícitas é uma vitima do vicio, um pobre coitado que foi aliciado para o mal, mas que deve ser respeitado, tratado e auxiliado pelo social. Fumar maconha não é caso de policia, é caso médico ... pobrezinhos, eles são reféns do sistema, do vício, dos traficantes malvados. Já os fumantes, estes não! Estes são pessoas conscientes que escolheram fazer mal a sua própria saúde e a alheia, precisam ser excluídos, colocados em fumódromos (que mais parecem jaulas), deixados do lado de fora e, mesmo assim, não em qualquer “fora” porque agora pode ser caso de polícia fumar no pátio de um restaurante, por exemplo. Isso não parece incoerente? Ou estou sendo parcial?

Sinceramente não sei a resposta, mas tenho uma sugestão: proíbam logo o cigarro, tornem o fumo uma droga ilícita. Assim o Estado estará provendo os fumantes de criminosos, suicidas e malfeitores à vítimas inocentes do sistema, do vício, dos traficantes, etc.

Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009

Meu tempo nada

Preciso confessar que algumas vezes fecho as cortinas e prefiro não estar, prefiro não ser nem parecer. Admito que em alguns dias a liberdade do nada é tudo que me atrai, que me motiva ... não é preguiça ou cansaço, é vontade pura de nada.

Existir como nada é libertador! a insignificância dá espaço à alma que se espreguiça para fora da aparência do ser. Gosto de amanhecer assim, como vácuo em mim, como espaço preenchido por vida ... simples.

Nem sempre consigo atender a essa exigência primitiva que guardo nas estranhas, é difícil ser vazio, é complicado se deixar murchar ... Somos condicionados a inflar, a crescer, a ganhar dimensão para ser visto. Mas afinal o que há para ser visto?

É somente no meu momento vazio, desnudo, quando me torno apenas respiração, que descubro a verdadeira resposta.

Amado Chico ...


É muito bom tê-lo conosco, seja bem-vindo!!! Durante nove meses você foi motivo de muita expectativa e ansiedade não apenas para seus dedicados pais, mas para todos que acompanharam sua gestação. Você nasceu de parto normal, um garotão lindo com mais de 3kg e 46 cm.

Como dinda, não pude deixar de ir vê-lo no hospital e vale salientar que todos estavam radiante com sua chegada. Você nesceu antes do prazo previsto, um menino moderno que, pelo que parece, já sabe como as coisas funcionam aqui fora: é preciso correr e sempre chegar antes do esperado.

Escrevo-te porque daqui pra frente seremos aliados. Vou precisar da sua ajuda para aprender a ser sua madrinha, e pretendo te ajudar a entender esse lugar maluco onde você veio parar. Aqui todo mundo é meio bom e meio mau, todos correm freneticamente sem saber para onde vão, as certezas são raras e você descobrirá bem cedo que é preciso duvidar sempre!

A partir de agora você receberá diversos conselhos e terá de aprender a filtrá-los, mas nunca se esqueça que o mais importante é não se deixar levar pelos preconceitos e pelas idéias prontas. Desfrute da sua liberdade de experimentar e tirar suas próprias conclusões, nada pode ser mais educativo do que isso. Aproveite que nada está pronto para você e construa sua história com as matizes que desejar.

Logo você se dará conta que o mundo é um tanto caótico, estamos mergulhados em contradições e isso faz parte da nossa natureza humana. Você ficará triste sem qualquer motivo aparente, terá vontade de sumir no meio da festa mais animada e, sem qualquer explicação razoável, sentirá uma uma brisa de euforia tomar conta de seu corpo numa manhã chuvosa e cinzenta. Será assim por toda vida, mas essa gongorra de emoções é exatamente o que te fará sentir vivo.

Existe tanto para você! sua estrada parece infinita do ponto onde estás. Você conhecerá a escola, os colegas, os esportes, a música, as artes, as cores, as letras e, certamente, as garotas. No início elas lhe parecerão sem graça e até mesmo desnecessárias, mas não se engane, você passará boa parte do seu tempo pensando nelas ... e acredite, você vai adorar fazê-lo.

A vida pode ser muito boa ou muito ruim, o que posso te garantir é que nada está posto, há sempre a chance de mudar as coisas, existe sempre uma porta a ser aberta por quem mantém os olhos atentos para notá-la. Se você tiver bom humor e boa vontade perceberá que tudo é possível, irá curtir o melhor que o mundo tem a oferecer com toda intesidade possível.

A meta dos seres humanos é sempre a enigmática busca pela felicidade. Não existem receitas pré-concebidas, você terá que fazer suas próprias tentativas. Parece chato? que nada, será empolgante. Cada novo dia se apresentará com novas possibilidades, e se você tiver a mente aberta irá desfrutar de cada segundo com toda sua força.

Meu querido afilhado, viver não é tão fácil quanto parece nem tão difícil quanto dizem, tudo depende do olhar que lançamos à vida. Por enquanto, Chico, basta que você se preocupe em crescer saudável e, para isso, só não podes esquecer do fundamental: divirta-se!!!

PS: baseado na crônica "Carta ao João Pedro" de Martha Medeiros.

Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

Instante Cecília

A sinfonia discrepante das teclas se compõe sob meus dedos órfãos de idéias, dou mergulho revigorante na tela branca buscando escutar o balbuciar de suas vontades tímidas. Não sou capaz de reproduzir outra paz senão esta. Fico a mercê do que possa ser dito, na expectativa infante dos próximos signos e de seus laços mal dados que surgem e se desfazem como delírios fantásticos rompendo a terra ocre da realidade.

A vida irrompe a aridez da tela empalidecida, ganha formas cores e acontece, verdadeiramente acontece. Nada me parece mais palpável. Apenas durante essa incrível submersão a noção de tempo pode ser sentida, o presente está vivo, é vivido, ganha vida no momento que as letras se unem e se seguem.

Aqui não há nada a ser dito é apenas uma experiência de alcançar o inatingível, o momento exato da criação, do nascimento, da ocupação de um espaço que não existe e, mesmo assim, pode se desfazer em um único toque.

Gosto da resignação que o nascimento exige, enquanto as coisas se fazem eu apenas escorrego os dedos pelas teclas e deixo que o universo se crie no instante que as palavras lhe dão contorno. O instante de Cecília, o instante já que apenas ela seria capaz de expressar.

Estrelas celestes surgem, mares e piratas com bandeiras cavernosas acontecem no presente mais imediato que a mente atinge. Basta lançar à tela que a vida se faz diante do olhar que a lê, é magia pura, é plenitude vital que ludibria os sentidos.

Domingo, 10 de Agosto de 2008

Mãos

Algumas linhas entrecruzadas, dez dedos, cinco em cada. As mãos, por certo, são mais que formas, formam, indicam, modelam. As minhas revelam-se, acima de tudo, um elo. Em cada curva ou linha, desvendem elas o futuro ou não, vejo o retrato perfeito de outras que não as minhas são.

Quanto ironia genética, logo as suas. Aquelas que em outros tempos me carregaram sem esforço algum, as mesmas que com certo desgosto me impuseram palmadas e, já um pouco cansadas, não desistiram de apontar-me a direção. As suas que tão minhas são, me ensinaram tudo ... do sim ao não, do silêncio ao barulho, da mágica a educação.

E como quis o destino fiz das mãos minhas armas para materializar a imaginação. Não escrevo por vocação, apenas por gosto, pelo prazer onírico de versar a vida por meio destas que também são suas e, sendo assim, sonham comigo.

Se antes me carregavam, agora eu as carrego e com elas me desprendo e, assim, me prendo à vida. Minhas mãos me lembram que mais que eu, sou também você !!! E hoje me alegro por através delas lhe dizer que a cada dia que as vejo amo muito mais você!!!